
É deplorável o que se ocorreu com Salvador, a outrora capital do Brasil, no último “dilúvio”. Numa clara ironia à passagem bíblica, dessa vez não se levaram animais ao barco, mas a água os trouxe, aos montes, às ruas: ratos, aedes aegypti, muriçocas, cobras e jacarés. Isso mesmo - mesmo um jacaré foi encontrado! E não só seu couro, em bolsas e sapatos das madames.
No início do mês de maio, entre os dias 1 e 10, ocorreram fortes chuvas que reafirmaram a falta de estrutura e o descaso do poder público com a cidade do Salvador, ou do Salve-se-quem-puder. Tudo virou um caos e o “banho de asfalto” não sobreviveu ao seu primeiro “banho de chuva” e os bueiros não escoaram a água, proporcionando terríveis alagamentos em vias. Vias essas que, olhando de cima, pareciam grandes lagos enlameados, entrecortadas por alguns muitos morros da morte que deixaram seu legado de dezenas de famílias desabrigadas e/ou mortas. Não bastasse tudo isso, estruturas básicas de qualquer sociedade capitalista atual foram soterradas: pane nos cartões de créditos, telefones fixos e móveis.
A questão do asfalto é uma das mais pensadas e não realizadas! Na Europa, o padrão rodoviário utilizado é o “Piso emborrachado”. Este piso, de fato, é muito caro. Porém, sua durabilidade e qualidade são superiores ás das “Britas presas” encontradas nas vias de nossa cidade. Será que não valeria à pena gastar mais e ter um maior e melhor aproveitamento? Ou é melhor gastar menos, várias vezes, deixando pra próxima administração, transformando a nossa cidade em um “canteiro de obras” só para mostrar serviço? Lembrem-se que, às vezes, o barato pode sair caro. Além de econômico (em longo prazo) o asfalto de látex é ecológico, pois pode ser feito com a utilização de pneus velhos. Dica aos políticos: desenvolvimento pleno e sustentável em tempos de pensamento verde também se converte em números nas eleições.
Como se não bastasse o volume de água que caía do céu e dificultava a população no deslocamento ( para o trabalho, escola, hospitais etc.), os rodoviários, na calada da noite, resolveram fazer paralisação no dia 7 de maio, deixando a população ainda mais aflita. Paralisações e protestos são válidos, quando se pode fazê-los.
Com problemas graves acontecendo, o que os noticiários enfocam é sobre uma gripe, de outro país, que matou número ínfimo de pessoas se comparada, por exemplo, à dengue, nossa vizinha, isso se não foca os olhares no circo das novelas e do futebol. Então, o comentário do povo continua sendo acerca de o que os meios de comunicação vendem, deixando de lado uma problemática que nos é própria – e que, portanto nos cabe entender, questionar e mudar. Em vez de pegar máscaras é melhor preparar seu guarda-chuva, seu caiaque e seu repelente.
Depois de algumas horas, a chuva passou e o sol raiou A cidade do Salvador secou e “à deriva” ficou. Todavia, nem sempre depois da tempestade vem a bonança e a chuva possibilitou o aumento de doenças como a dengue, meningite e leptospirose. Não bastando tudo isso, a rede saúde pública saiu do ar. Será o fim dos tempos? Sim, fim dos tempos claros de sol e carnaval, com gringos brancos na rua ao som de negros com atabaques nas mãos e sorrisos amigáveis no rosto. O clima está fechando, e estamos apenas no inicio dos períodos de chuva. Talvez seja a hora de voltar a um certo livro de dois milênios de idade e seguir seus conselhos: peguemos nossos gatos, cachorros e papagaios, um par de cada, e os ponhamos num ferry-boat com destino ao paraíso. E rezemos para que ele não afunde junto…
Durante algum tempo, Salvador pôde ser chamada de a Veneza brasileira. No lugar das gôndolas, carros; no lugar dos canais, vias públicas de asfalto, sujeira, buracos; no lugar do romantismo dos casais apaixonados, a dor da morte para uma mãe e seu filho.
“Todo poder emana do povo…” art 1º, CF 88.
Pense Direito.