Mais um texto enviado pelo leitor Daniel Varga.

Amy Winehouse teve negado seu visto de entrada nos Estados Unidos. Mais de uma vez, diga-se de passagem. O motivo teria sido o conhecido vício da cantora por drogas e bebidas alcoólicas. Pela lógica, Paris Hilton deveria perder a nacionalidade americana. Mas, para estrangeiros, o “esquema” é diferente. Eu e minha mãe pudemos experimentar um pouco disso recentemente.
Pretendendo viajar para os Estados Unidos no fim do ano, começamos nossa aventura em busca do visto americano. Só eu já fui lá três vezes, e minha mãe, talvez em torno de dez. A princípio seria uma tarefa simples, mas o suceder dos fatos provou o contrário. Achávamos que o maior desconforto residia em nos deslocar até Recife, onde se situa o consulado responsável pelo Nordeste. Ledo engano.
O caminhão de dificuldades começa já em marcar uma entrevista. Depois de preencher incontáveis formulários via internet, com perguntas muitas vezes estúpidas, ou simplesmente sem sentido, conseguimos marcá-la para um mês depois. Queriam saber, dentre outras coisas, se nós manipulávamos armas nucleares, se tínhamos conhecimento do uso de armas biológicas, se fazíamos parte de algum exército ou milícia, se já havíamos participado de alguma guerra, como soldado ou como vítima. Também perguntavam o nome do nosso clã… acho que um pouco inadequado para a realidade brasileira.
A modesta taxa de 130 dólares por pessoa só poderia ser paga no americaníssimo Citi Bank, um daqueles bancos que quase faliram com a crise. A taxa é paga independente do sucesso de seu visto. Quer cogitar em ir para os EUA?Então pague.
Chegando em Recife, procuramos saber a distância do consulado para o nosso hotel, já que a entrevista havia sido marcada para as 7 horas da manhã. Acordamos mais ou menos às 5:30, afinal, com americano não se brinca. Chegando ao consulado pontualmente, já havia alguma fila, e de plano alguns detalhes me chamaram a atenção.
A simpática casa laranja não ostentava a bandeira americana, como comumente ocorre em qualquer representação diplomática. Engraçado isso. Os imperadores romanos faziam questão de fincar seus estandartes pelas terras conquistadas. Será que a nova Roma é um pouco mais tímida?Ou teria sido mera obra do acaso?Meu sentimento é de que talvez a América –como eles se autointitulam- não se sinta tão à vontade em terras estrangeiras, preferindo fazer-se presente de forma discreta, às sombras.
Depois desse detalhe frívolo, o tom policialesco que iria marcar a entrevista desponta. Um funcionário do consulado, em tom arrogante, começa a dar ordens para a organização da fila. Ele se sentia um autêntico representante do império, mas seu sotaque carregado não deixava mentir: era pernambucano nato. Depois de dar as instruções, proclamava um frio “boa sorte a todos”. Boa sorte?Eu só vim aqui tirar um vistinho pra viajar pros EUA e preciso de sorte?E o pior é que precisaria…
Com o tempo passando e a fila se avolumando, os carros começavam a chegar no Consulado. Todos eles, sem exceção, eram revistados: rodas, mala, capô. Parecia que uma bomba poderia explodir a qualquer momento. É como se a Al Qaeda tivesse estendido seus tentáculos por toda nação tupiniquim. Esses árabes hein, não poupam sequer o Brasil!
Antes de entrarmos no Consulado, depois de uma hora na fila, tínhamos que entregar os formulários ao tal funcionário. A regra era clara: se você estivesse acompanhado, só uma única pessoa poderia dirigir-se ao local. Aliás, tudo dentro do consulado, salvo a entrevista, deve ser feito singularmente. Mais de uma pessoa junta para eles é motim. Converse consigo mesmo, ou melhor, nem sequer pense. Quem sabe os americanos já não inventaram uma máquina owrelliana, que acuse crime de pensamento?1984 perde feio.
A sala de entrada possui um esquema de segurança digno de um grande aeroporto americano. Vários seguranças presentes. As bagagens e as pessoas devem passar por um raio X. Como tenho ressecamento nos olhos, levo sempre comigo um colírio. Ao ver meu colírio, o segurança pediu para que eu colocasse um pouco. Hilário! Nesse momento me senti um autêntico representante da Al Qaeda com um frasquinho de nitrogênio líquido, pronto para dar minha vida em nome de Allá.
Antes de entrarmos na sala de espera para a entrevista, passamos por um novo ponto de segurança. Desta vez, todos os objetos eletrônicos eram recolhidos. Mas o mais engraçado estava por vir. Ao receber os telefones celulares, o segurança nos entrega uma ficha e dá o seguinte recado: “não perca esta ficha em hipótese alguma. Caso você perca a ficha, os celulares não serão devolvidos”, e ponto final. Mas, como assim?Por conta de um pedaço de plástico eu perco a propriedade sobre meu telefone celular?Logo os americanos, guardiões insofismáveis do direito de propriedade?Ah, esqueci, nós somos estrangeiros…
Finalmente adentramos a sala de espera, repleta de seguranças, of course. O vidro, da grossura de uma parede, blindadíssimo. E, como se já não bastasse, coberto por uma grade de ferro. A simpática casa revelava-se como um castelo medieval em pleno século XXI. O interior era decorado com desenhos de personalidades, além de quadros exaltando atrações americanas. Um dentre eles se destacava: Tinha escrito “We will never forget”, se reportando aos ataques de 11 de setembro. E não esqueceram mesmo. Vidros blindados, enorme quantidade de seguranças, revista nos carros, tudo isso no Brasil. O atentando produziu uma verdadeira neurose nos americanos, sabiamente manipulada pelos políticos.
Um painel eletrônico chamava as pessoas aleatoriamente. A desordem gerava confusão entre os aspirantes ao visto, o que levou uma funcionária do consulado a explicar que de fato a chamada era aleatória. Não consegui imaginar o porquê. Talvez seja uma tática para enganar os terroristas. Aqueles árabes desorientados provavelmente devem ficar ainda mais desorientados com essa tática brilhante. God bless America.
Antes da entrevista, temos que deixar as nossas impressões digitais. Aí sim eu vi uma verdadeira máquina owrelliana. Se você acha que tínhamos que sujar nossa mão de tinta, está enganado. Bota a mãozinha num scanner e pronto!O império tem suas digitais (as minhas, no caso).
Depois de um chá, ou melhor, de um coffee de espera (chá é coisa de inglês), finalmente chegou a nossa entrevista. O face to face com o cônsul se dá através de uma parede de vidro. Não precisa nem dizer que o vidro é blindado.
E lá veio a primeira pergunta: “Afinal, vocês estão morando no Brasil ou no Canadá?”. Pronto, o nosso destino estava selado. As portas para o “reino da liberdade” se fechavam. Explico-me: minha família emigrou para o Canadá, tendo permanecido lá por pouco tempo. Eu, apesar de não ter ido, também participei do processo, o que me valeu um visto de imigração canadense. Na cabeça do oficial consular, nós demonstrávamos, por conta do visto, uma “mentalidade de imigração”. E isso foi suficiente para ter negada a entrada americana. Mas é lógico que só depois de uma boa dose de perguntas estapafúrdias por parte do funcionário. Ele queria saber, por exemplo, como conseguimos o visto canadense; se tínhamos algum amigo no Canadá. Minha mãe respondeu que pelo processo federal, do que ele retrucou: ”Mas isso não é uma resposta…” Me pergunto o que ele queria ouvir como resposta. Que nós, vestidos de homem-bomba, ameaçamos o consulado canadense?
Quando revelei que estava me preparando para carreira diplomática, a intervenção foi ainda mais absurda:”Mas você conhece alguém no Instituto Rio Branco?Você não tem cara de ter cunha no Instituto Rio Branco.” Irritado, respondi que no Brasil, o acesso à carreira se dava por concurso público. Talvez nos Estados Unidos eles ainda tenham o arcaico hábito de recrutar a elite –e somente ela – para fazer parte do corpo diplomático. Ave Roma! E por aí vai. Gostaria de saber qual seria a reação do oficial se soubesse que minha mãe já esteve em Cuba (felizmente os cubanos não carimbam o passaporte, talvez já prevendo as desventuras que isso possa causar), ou se prestasse atenção no meu carimbo do Marrocos. Seríamos imigrantes islâmico-comunistas, ou seja, a própria encarnação de Satã. Mas enfim, bastou o visto de imigração canadense para não podermos entrar na hiperpotência.
E assim termina nossa pretensão de fazer compras natalinas em Nova York. Assim como Amy Winehouse, tivemos negada a nossa entrada nos EUA. E assim como a América não terá o prazer de escutar ao vivo uma das maiores intérpretes do Jazz da atualidade, também não receberá nosso punhadinho de dólares, que quem sabe não ajudaria a reaquecer sua titubeante economia É uma pena, but it’s ok! Soube que Paris fica lindíssima no Natal!!
Daniel Pessoa Domenech Varga



Olá perceiro, estou fazendo uma atividade para a minha faculdade, e estava dependendo de algumas coisas, acabei de encontrar aqui no seu poste, muito obrigado.